22
Nov 09

O meu amigo Miguel Carvalho, da Visão, lançou um desafio aos leitores habituais do seu blogue A Devida Comédia: escrever sobre o futuro e responder à questão: Ainda há futuros como antigamente?

Não me fiz de rogada e aceitei a proposta. Daí surgiu este texto, amargo, um pouco dorido mas sincero....

 

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As certezas de algo só as podem ser quando, no concreto, elas acontecem.
Estou habituada a ter futuros de um dia, a pensar que mais de 72 horas já são demasiadamente futuro. E o que se pode conjecturar como futuro, isso é o irremediavelmente necessário de fazer no imediato. Logo, o que é já futuro não é mais que um presente mais distante, a concretizar algures.
 

Quem acompanha o Historiador do Instante percebe que mais que pensar no futuro, o presente é que me dá algum trabalho e apoquenta. Se fosse tudo como antigamente – o tempo que não vivi e que me pedem que comente – as coisas seriam harmoniosamente iguais, visto cada tempo conter em si a particularidade do único e singular. Logo, quando me perguntam se há futuros como antigamente, respondo, de forma crua: Não, esses futuros já passaram, são passado, logo não há.
 

Faz sentido desconstruir um futuro possível ao mesmo tempo que o tentamos tornar futuro? Estranha prática de querer o que não se pode, visto já ter passado. No blogue que pelo nome já diz tudo – a marca intemporal do presente e do instante – o futuro não é mais que uma palavra frustrada e amarrotada. Puxada a negrito em situações de desejo e levada ao extremo em momentos de insanidade da autora: “Nunca saberei se dou os passos correctos, se faço as coisas acertadas e se não erro em cada acto.

Simplesmente tento ser ponderada, previsível e tentar não magoar ninguém. Mas o que se pode esperar de uma miúda de 21 anos, com vivência de 30’s mas que preferia ter de novo 15? Irreflectidamente, penso como a mulher de 30, tento parecer a míuda de 21 que sou mas que sente como se tivesse 15. Dilemas e ponderações assombram-me a cada minuto, já que me apaixono por um mundo que não é o meu. Ou poderia ser, se vivesse no meu tempo, as coisas desse tempo, sem questões e medos”.

(…)

“Chegou o tempo em que revelo umas olheiras descomunais, do choro doentio que me assola. Os dias passam sem sabor, o sol brilha mas não me aquece. E mais choro por estar longe. De tudo, de todos. Dos amigos que precisam de mim e de quem eu também necessito. Por favor, não façam nada. Liguem-me, eu atendo, arranjo tempo. Mas por favor, não me deixem aqui sozinha”.
 

Por isso, futuro, é palavra que não consta já no meu dicionário. Nem lhe reservo espaço momentâneo. Não merece. Futuro é o momento que ainda não vivi. Logo é o segundo que se avizinha, depois de escrever esta palavra. É tempo incerto como a chuva que tarda em cair. E é medo. Medo de ser algo que deveria ser já presente e que não o é.
 

“Medos, tenho muitos, muito mais que o abominável medo que tenho do escuro.
E é só!”
 

Vanessa Quitério
http://historiadordoinstante.blogs.sapo.pt

historiado por vanessaquiterio às 22:45
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